Tato, sons e Libras: jovem cego e consultora surda contam como vivem a Feira do Livro de Ribeirão Preto, SP

  • 05/09/2026
(Foto: Reprodução)
Feira do Livro de Ribeirão Preto: inclusão com Libras e Braille O estudante Anderson Maximiano da Silva, de Santa Rosa de Viterbo (SP), tem 19 anos e está aprendendo a ler em Braille. Ele cursa o terceiro ano do ensino médio na Escola Estadual Conde Francisco Matarazzo, e está sendo alfabetizado agora. Anderson nasceu cego e são os livros adaptados que o ajudam neste processo. Os mais novos exemplares da prateleira do estudante são um livro sobre carros e outro sobre dinossauros, os dois em Braille, que ele comprou nesta semana, quando visitou a Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto (SP) acompanhado do professor de apoio Otton Omar Balthazar, que está com ele desde o começo do ano. ✅Clique aqui para seguir o canal do g1 Ribeirão e Franca no WhatsApp Os dois passam cerca de seis horas por dia juntos, momento em que Otton e Anderson repassam os conteúdos passados na escola regular para que o estudante consiga compreender cada assunto ensinado. Anderson já aprendeu a escrever em Braille, mas ainda diz que ainda tem dificuldade para reconhecer os pontos menores produzidos pela máquina. Por isso, Otton também utiliza material pedagógico com peças maiores para formar as letras e desenvolver a sensibilidade das mãos do aluno. Na Feira Internacional do Livro, além dos exemplares escolhidos por Anderson, o professor o presenteou com uma publicação sensorial, para que o estudante pudesse explorar as texturas. "Trabalho mais o sensorial porque, quanto mais ele tiver essa sensibilidade, melhor vai ser a leitura. Eu comprei um livro sensorial para ele, porque ele gosta muito de sentir as texturas", explica Otton. Para a vice-presidente da Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto, Priscilla Altran, a proposta da feira é permitir que as pessoas com deficiência acompanhem toda a programação, e não apenas atividades voltadas especificamente para elas. "A gente abre os espaços, faz essa aproximação e eles se sentem cada vez mais convidados a estar com a gente. Não temos atividades específicas para determinados públicos. Temos atividades, e esse público precisa ter acesso a todas elas." Anderson Maximiano da Silva ao lado do professor de apoio Otton Omar Balthazar e da coordenadora da rede estadual de ensino. Murilo Corazza/g1 A 25ª edição do evento reuniu palestras, oficinas, bate-papos e experiências sensoriais em diferentes espaços de Ribeirão Preto. Parte das atividades contou ainda com interpretação em Língua Brasileira de Sinais (Libras) e propostas que exploravam o tato, a audição, o olfato e outros sentidos, além de estruturas voltadas à circulação e ao acolhimento do público. Acolhimento e acessibilidade A consultora de acessibilidade Ingrid Loyo, de 24 anos, é surda e esteve na feira pela segunda vez. Ao g1, ela revelou que a experiência deste ano foi mais acessível e acolhedora, principalmente por conta da presença de uma intérprete de Libras que a ajudou a se comunicar. "A presença do intérprete me dá conforto e o alívio de que vou ser compreendida. Antes, eu tinha medo de me entenderem mal. Agora, eu me sinto confortável para me comunicar, estar nos lugares, acompanhar as atividades, obter informações seguras e aprender". A relação dela com os livros também passa pela tradução. Ingrid trabalha na biblioteca do Senac e afirma que gosta de ler, mas tem o português como segunda língua, porque na comunidade surda, Libras é a primeira língua de parte das pessoas. "Às vezes, nós, da comunidade surda, temos dificuldade com o português, porque nossa primeira língua é Libras. Os intérpretes ajudam a traduzir as palavras e explicar o sentido do texto, de uma poesia ou de uma metáfora." Ingrid Loyo circula pelos espaços da feira com o apoio de intérpretes de Libras, que auxiliam na comunicação e no acesso às informações Murilo Corazza/g1 Circular também é participar A acessibilidade também influencia a maneira como Anderson circula pelos espaços. Na escola, ele é estimulado a reconhecer sozinho os caminhos até a sala de aula e o banheiro. Na feira, Otton afirma que o estudante recebeu apoio para se deslocar pela Biblioteca Sinhá Junqueira. A equipe apresentou os caminhos disponíveis, perguntou se ele conseguia utilizar as escadas e ofereceu o elevador. Para o professor, o auxílio precisa existir sem impedir que Anderson faça escolhas e desenvolva independência. "Quando a gente chegou à feira, o suporte foi muito atencioso. Mas eu pensei: ‘deixa ele fazer’. As pessoas limitam muito os deficientes visuais. Ele sabe ir para a sala de aula sozinho e estamos ensinando o caminho até o banheiro. Se ficar o tempo inteiro sendo guiado, nunca vai ser autônomo." Anderson Maximiano da Silva escreve em uma máquina Braille durante experiência sensorial realizada na Feira do Livro Murilo Corazza/g1 Segundo Priscilla, as condições de deslocamento começam a ser discutidas durante a elaboração do projeto de cada edição. O planejamento inclui rampas, banheiros acessíveis, passarelas e rotas de circulação por espaços como o calçadão, onde há trechos com paralelepípedos. "Primeiramente, a gente precisa pensar que, geograficamente, esse espaço deve ser acolhedor e acessível. Precisamos prever rampas, banheiros e os lugares onde essas estruturas vão ficar. Dentro do calçadão, também temos que pensar nas rotas possíveis". Além da estrutura física, a vice-presidente afirma que a organização trabalha com o que chama de acessibilidade humanizada, que envolve a abordagem, o acolhimento e a preparação das equipes. Ingrid Loyo (à esquerda) e Anderson Maximiano da Silva (à direita) contam como diferentes recursos ampliam a participação de pessoas surdas e cegas na Feira do Livro Murilo Corazza/ g1 Libras para acompanhar e participar Se o tato ajuda Anderson no contato com as palavras, para Ingrid a participação passa principalmente pela Libras, língua baseada em movimentos e expressões visuais. Ela conta que já esteve em outras edições da Feira do Livro, mas não encontrou o mesmo suporte para acompanhar as atividades. Sem intérpretes, sentia receio de não compreender as informações ou de não conseguir se comunicar. "Quando não temos intérprete, encontramos muitas barreiras e não conseguimos ter confiança para participar de um evento. Agora é outra perspectiva e outro entendimento. Temos a oportunidade de estar nos locais, acompanhar as palestras, aprender sobre diferentes temas, participar dessa troca e nos posicionar." Durante a visita, Ingrid foi acompanhada por Pamela Cupaiuolo Tognon Oliveira, coordenadora da equipe de acessibilidade em Libras da feira. A presença da profissional permitiu que ela conversasse com expositores, pedisse informações e acompanhasse as atividades realizadas ao longo do dia. Além desse acompanhamento, intérpretes estão distribuídos por pontos específicos do evento e nas atividades identificadas como acessíveis. No balcão de informações, o público surdo pode consultar a programação, verificar quais atrações contam com Libras e pedir orientação para chegar aos diferentes espaços. As palestras e oficinas com interpretação também são identificadas por um símbolo no material de divulgação. Na Tenda Sesc Senac, por exemplo, o serviço acompanha a programação e permite que visitantes surdos participem das atividades. “A acessibilidade não acontece apenas durante uma palestra. A pessoa surda também precisa chegar à feira, pedir informações, identificar quais atividades contam com Libras e circular pelos espaços. Por isso, temos intérpretes em pontos específicos e no balcão de informações, além do acompanhamento ao longo da programação, para que o público participe com autonomia.” Ingrid Loyo é acompanhada por Pamela Cupaiuolo Tognon Oliveira, coordenadora da equipe de acessibilidade em Libras da Feira do Livro Murilo Corazza/ g1 Nesta edição, Ingrid também participa como consultora e ajuda a divulgar a programação para a comunidade surda. Entre as experiências acompanhadas por ela está uma oficina de aromaterapia e óleos essenciais, que explorou o olfato e permitiu o contato com o conteúdo para além da comunicação oral. "Eu gosto muito das oficinas práticas. A comunidade surda também gostou bastante de aprender sobre aromaterapia, óleos essenciais e as atividades oferecidas pelo Senac. Quando chego em casa, lembro de tudo o que aprendi". Participantes acompanham experiência sensorial promovida pela ADEVIRP na Biblioteca Sinhá Junqueira, durante a 25ª Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto Murilo Corazza/g1 *Sob a supervisão de Flávia Santucci Veja mais notícias da região no g1 Ribeirão Preto e Franca VÍDEOS: Tudo sobre Ribeirão Preto, Franca e região

FONTE: https://g1.globo.com/sp/ribeirao-preto-franca/noticia/2026/09/05/tato-sons-e-libras-jovem-cego-e-consultora-surda-contam-como-vivem-a-feira-do-livro-de-ribeirao-preto-sp.ghtml


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